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25.5.11

Votação da anistia a desmatadores: um jeito simples de saber de que lado está seu deputado

Ontem à noite tivemos a votação de um projeto de suma importância para o futuro do Brasil (porque não, do planeta, dado o nosso tamanho) e sua afirmação como potência mundial: o novo Código Florestal que, define, de modo sucinto, regras para utilização do solo na agricultura.

Não vou me alongar explicando o projeto, até porque não tenho competência pra isso. Reconheço que é e foi necessário ouvir os vários setores da sociedade e fazer o acordo 'possível', ao invés do ideal, cedendo em muitos pontos aos representantes dos ruralistas que, via de regra, são latifundiários e desmatadores.

O mais importante nem foi a votação do texto base do código em si, elaborado pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB), mas a emenda apresentada pelo (argh) PMDB (PL Nº 1876/1999 - DVS - PMDB - EMENDA Nº 164) com duas alterações: a anistia para quem desmatou até 2008 (ou seja, aqueles que passaram a motosserra sem dó antes da aprovação do código, se lixando para a lei), e a autonomia dos estados para definirem limites de áreas de preservação.

Assim, não foi surpresa a aprovação por ampla maioria do texto-base, mas a aprovação da emenda 164.

Reproduzo abaixo a lista dos votos dos deputados mineiros (a lista completa está aqui). 'Sim' foi quem votou a favor da anistia aos desmatadores. 'Não' foram os poucos que votaram contra, e que merecem nosso respeito e nossos votos no futuro.

Decepção pelo voto da minha deputada Jô Moraes (PCdoB) que, como todos os deputados do seu partido, votou a favor da anistia. Não sei se a desculpa é pra apoiar o relator Aldo, que é do PCdoB, que estava sendo muito pressionado de todo lado - o que, aliás, não é desculpa, podia fazer igual ao PT, votar a favor do texto base, mas jamais aprovar a emenda da anistia. O fato é que não voto mais nela.
Decepção também pelo deputado Eros Biondini, tão defendido e exaltado pelo meu amigão Raphael Maia, ter votado 'Sim'. Para um deputado que se elegeu defendendo 'a vida', muito estranho apoiar a devastação da natureza. Quem votou nele que o cobre.

Em compensação, orgulho total do PT ter votado unanimemente contra. Para o PT, para Dilma, e para mim, essa emenda 'é uma vergonha para o Brasil'. E hoje o mundo já repercute negativamente esta aprovação.

E mais uma vez (é surpresa pra alguém?), nojo de PSDB, DEM e PMDB, de onde não saiu um voto sequer pelo 'Não'. Afinal, são eles os fazendeiros e/ou políticos financiados por pessoas/empresas que só querem sugar todos os recursos naturais em seu benefício, e dane-se a população, o país e o meio-ambiente. Até nos fisiologistas PP e PR houve dissidências, mas nos partidões dos coronéis a ordem é agradar os poderosos e mandar a população e o ambiente às favas.

Tape o nariz, veja se seu deputado votou a favor ou não, cobre dele e pense bem na próxima eleição.

Parlamentar Partido Bloco Voto
Rodrigo de Castro PSDB Abstenção
Lincoln Portela PR PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Não
Dr. Grilo PSL PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Não
Luis Tibé PTdoB PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Não
Júlio Delgado PSB PsbPtbPcdob Não
Antônio Roberto PV PvPps Não
Fábio Ramalho PV PvPps Não
Ademir Camilo PDT Não
Walter Tosta PMN Não
Márcio Reinaldo Moreira PP Não
Gabriel Guimarães PT Não
Gilmar Machado PT Não
Leonardo Monteiro PT Não
Miguel Corrêa PT Não
Odair Cunha PT Não
Padre João PT Não
Weliton Prado PT Não
José Humberto PHS PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Sim
Aelton Freitas PR PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Sim
Aracely de Paula PR PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Sim
Bernardo Santana de Vasconcellos PR PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Sim
Diego Andrade PR PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Sim
Jaime Martins PR PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Sim
George Hilton PRB PrPrbPtdobPrtbPrpPhsPtcPsl Sim
Jô Moraes PCdoB PsbPtbPcdob Sim
Eros Biondini PTB PsbPtbPcdob Sim
Geraldo Thadeu PPS PvPps Sim
Jairo Ataide DEM Sim
Marcos Montes DEM Sim
Vitor Penido DEM Sim
Zé Silva PDT Sim
Antônio Andrade PMDB Sim
João Magalhães PMDB Sim
Newton Cardoso PMDB Sim
Paulo Piau PMDB Sim
Saraiva Felipe PMDB Sim
Dimas Fabiano PP Sim
Toninho Pinheiro PP Sim
Stefano Aguiar PSC Sim
Bonifácio de Andrada PSDB Sim
Carlaile Pedrosa PSDB Sim
Domingos Sávio PSDB Sim
Eduardo Azeredo PSDB Sim
Eduardo Barbosa PSDB Sim
Marcus Pestana PSDB Sim
Paulo Abi-Ackel PSDB Sim

30.12.10

Valeu, Lula!

Nunca na história desse país um presidente foi tão homenageado em blogs e nas redes sociais em sua saída. Por isso, já que é lugar comum, vou me atrever a também deixar aqui minhas palavras para o maior presidente da história do Brasil.

Lula, conheci você em 1982. Eu tinha só 10 anos, e recortava da Veja (perdoem-me, eu só tinha 10 anos) todos os quadros e gráficos das pesquisas de intenção de voto nas eleições estaduais daquele ano, colava em um caderninho.



'Torci' naquele para o Brizola, no Rio, em primeiro lugar (acompanhava tudo do Rio por causa do meu Mengão), para o Tancredo em Minas, e gostei daquele barbudo que disputou (e perdeu, como tantas outras) a eleição em SP.

Também em 1982 aprendi, ainda sem saber que viria a ser conhecido como PIG, como a imprensa distorcia e manipulava. A Globo fazia campanha aberta contra Brizola, não me lembro bem como foi, a apuração foi fraudada (help me Google), mas ele venceu, e neste dia eu escolhi meu lado. Seria eternamente socialista, contra os poderosos que manipulam as informações e o povo para conservar seus privilégios. E passei a detestar a Globo.

Depois disso veio a campanha pelas diretas, em 1984, e lá estava Lula, junto com Ulysses Guimarães e Brizola, liderando o movimento que, se não foi bem-sucedido a ponto de votarmos para presidente naquele ano, sepultou definitivamente a ditadura, mostrando a vontade popular de votar, aquele comício das Diretas, sei lá, um milhão de pessoas, eu vendo pela TV lá em Lajinha-MG, 12 anos de idade...

Pulo para 1989. Já na universidade, ainda que sem participar de movimento estudantil, era um ativista pró-Brizola. Só usava camisa do Brizola, boné do Brizola, lia livro do Brizola, filiei-me ao PDT, participava - morrendo de vergonha, sempre tive vergonha de entregar papel e falar com desconhecidos - de atividades de rua. Meu pai também era Brizola, o Banco do Brasil todo era, havia um sentimento de que ele era o cara pra nos salvar dessas oligarquias dos Agripinos e Sarneys que até hoje mandam no Brasil.

Mas, por muito pouco, quem foi para o segundo turno naquele ano contra Collor foi o 'sapo barbudo', como Brizola se referia a Lula. E tivemos que engolir o sapo barbudo. Todo mundo virou Lula, foi bonito demais, a campanha mais bonita da história. Todos os estudantes, todos os professores, todos os artistas da TV, todos os músicos - quase todos, havia alguns corajosos pró-Collor.

Veio toda a manipulação na TV pela Globo, quando Lula já aparecia tecnicamente empatado com Collor a poucos dias da eleição, tendo saído de uns 17% pra 41%, e Collor caído de mais de 50% para 42%. Essa história vergonhosa todos já conhecem e, mais uma vez, patrocinada pela vergonhosa Rede Globo.

Daí em diante minha vida sempre tinha o Lula. O cara persistente, líder nato, perdeu de novo em 1994, nem tínhamos muita esperança, mas ele tinha que ir lá marcar presença. Em 1998 a mesma coisa, FHC tinha comprado o esquema da reeleição, tinha manipulado o dólar e a economia para criar uma falsa sensação de bem-estar (que, como todos sabemos, explodiu no ano seguinte, que o levou a um segundo mandato tenebroso e, ao fim, com justos 74% de reprovação popular).

Eu ficava pensando se não era hora de Lula desistir, voltar a ser deputado, ajudar o Brasil de outra maneira. Mas não, acabava a eleição e já sabíamos que ele ia ser candidato de novo, e começávamos a produzir os adesivos tipo 'Feliz 1999' em 1994, e assim por diante. Paralelo a isso, ficava feliz aqui em BH, porque em 1989 Lula teve 69% contra 31% de Collor, elegemos Patrus, Célio de Castro, Fernando Pimentel... e TODAS as vezes que Lula vinha a BH eu ia vê-lo, em caminhadas ou comícios.

Em 2002 não tinha jeito, era o ano do cara. FHC e seu PSDB em baixa, um governo horroroso, tinha que ser aquela hora. Neste ano me filiei ao PT. Nunca tive nenhuma participação 'orgânica', não conheço nenhum político, só fui lá no diretório umas 10 vezes na vida, só pra buscar material de campanha. Mas tenho orgulho da minha carteirinha, de ser filiado.

Vencer não foi fácil, o PIG com as garras de fora, Veja e Globo fazendo campanha (não tão descarada como foi a de 2010, mas faziam), Lula não tinha nem um terço do espaço que davam a Serra, mas era nossa, não iam tomar. Foi sensacional acompanhar a apuração, todo mundo na rua, eu com Marquim meu sócio, gravamos CD com as músicas do Lula, ficávamos escutando no carro. Inesquecível. Como foi a posse de Lula, eu em Alcobaça-BA, a galera na praia, eu em frente à TV vendo aquele cara chegando à rampa... inesquecível, um monte de coisas inesquecíveis. (atualização, achei a foto, taí embaixo)!


A partir daí, pela primeira vez, eu não seria oposição. Seria mais fácil me 'desligar' um pouco, mas fiquei firme, já tinha internet, blog, etc, defendi o governo todas as vezes, em todos os papos, conversas de família e de botequim, mesmo na dureza que foi o 'mensalão' de 2005. Chegou 2006, Lulão fodão, mais uma vez achávamos que não tinha a menor chance de perder, mas o PIG se esforçou, arrumaram uma montanha de dinheiro dos aloprados pra tirar foto um dia antes do debate, depois Lula fez a cagada de não ir ao debate, Globo ficava filmando cadeira vazia, foi pro segundo turno mas... nós e Lula demos uma surra em Alckmin (coitado)


Então o segundo mandato de Lula foi o de recordes: recorde de emprego, juros (ainda altíssimos) em queda, economia bombando, pobres saindo da miséria, universidades e CEFETs sendo construídos, reservas lá em cima, credibilidade internacional. Uma festa total. Oposição perdida, orgulho cada vez maior de ter ajudado a colocar esse cara lá. Enfim, não cabe ficar falando aqui das realizações do governo. Elegemos Dilma baseados nestes indicadores que não podem ser contestados.

Lula foi melhor que o PSDB em TODOS os aspectos, Lula foi o maior presidente da história do Brasil, Lula sai com 87% de aprovação, número que NENHUM outro político terá.

Escrevo isso porque estive ontem na casa de amigos das antigas, rolou um VHS de um churrasco no interior, 1990, todo mundo lá tomando cerveja, tocando violão, e eu com camisa do Brizola/Lula (camisa do segundo turno). No dia seguinte, mais churrasco, eu com outra camisa do Lula.

É, Lulão, valeu. Espero sinceramente que você continue na ativa, mas também acho que, por ter virado um mito, você só tem a perder se quiser voltar. Mas tá no seu sangue, você é povo, não vai ficar só dando palestra na Sorbonne...

Com você, Lula, aprendi o que é povo, por que devemos lutar pela igualdade social, pelo fim da miséria. Você falava lá, desde 1982. Teve a chance de fazer o que falava. E não nos decepcionou. Você fez o que a gente esperava, Lula. Falta muito ainda, mas o fato de termos colocado Dilma lá significa que seu projeto que mudou o Brasil vai continuar.


Não é mais meia dúzia de donos de TV e jornais que decidem o nosso futuro. O Brasil agora é grande, o mundo inteiro reconhece e nós sabemos disso, nos orgulhamos, vamos pra frente, graças a você e graças ao povão.

Cazuza queria uma idelogia pra viver. Lula me deu uma: a busca incessante pela justiça social, único caminho para engrandecer o Brasil e colocá-lo onde merece. E a lição da persistência.

Porra, Lula, valeu demais!!!

Pra encerrar, segue o belo vídeo que o meu amigo 'quantotempodura' fez para homenagear O CARA:

18.10.10

Folha de São Paulo: como distorcer uma entrevista - ou 'os tucanos não têm jeito, têm horror a pobre'

Recebi mensagem do meu 'amigo virtual' @osvaldoacastro que, claro, queria me provocar porque ele não gosta do PT (mas odeia Serra), e eu sou PT. Uma entrevista do sociólogo Francisco de Oliveira, um dos fundadores do PT, que dispara críticas tanto ao seu ex-partido quanto ao PSDB

Vejam o título da entrevista e compare com os trechos que reproduzo. Fica parecendo pelo título que o sociólogo entrevistado é contra Lula e o PT. Mas vou resumir as principais afirmações dele durante a entrevista e você conclui se a manchete é ou não distorcida (sabendo que muita gente só lê a manchete para alimentar conversas de elevador ou retuitar sem ler)

O entrevistador tenta direcionar a entrevista para dizer que José Dirceu terá poder em um eventual Governo Dilma, que Lula é uma ameaça à democracia, e o entrevistado discorda de ambas as alegações.

Vejam como é o resumo da entrevista que a Folha faz nos 2 primeiros parágrafos, e como não bate com o resto, a começar pela primeira resposta, onde Francisco já diz que tucanos têm horror a pobre, expressão que é repetida várias vezes e que, por isso, seria merecedora da manchete, mas a 'opção' da Folha é outra...

E vejam na última frase que a Folha tenta arrancar dele de todo jeito uma escolha entre os candidatos, ao que ele reitera:  'É difícil. Os tucanos têm horror a pobre. Os tucanos não têm jeito'. Captou?

Francisco de Oliveira faz duras críticas a Lula ao PT, que devem ser democraticamente acolhidas e discutidas. Também faz ao PSDB, que 'não tem jeito', que administra 'por cima', 'pouco à vontade com o povo'. A entrevista tem seu valor e deve ser assim compreendida. Manipulada ou distorcida, aí não.

Não retransmita nada sem ler direito, nem acredite só nas manchetes. Quer falar sobre alguma coisa? Leia várias fontes, e o conteúdo todo, assim derrubamos esse tipo de manipulação perversa

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Sociólogo e fundador do PT afirma que 'Lula é mais privatista que FHC'

No começo de 2003, ano em que rompeu com o PT, o sociólogo Francisco de Oliveira, 76, afirmou que "Lula nunca foi de esquerda".

Agora, o professor emérito da USP dá um passo adiante e diz que Lula, mais que Fernando Henrique Cardoso, é "privatista numa escala que o Brasil nunca conheceu".

Na entrevista abaixo, Oliveira, um dos fundadores do PT, também afirma que tanto faz votar em Dilma Rousseff (PT) ou José Serra (PSDB), analisa o papel de Marina Silva (PV) e critica a entrada do aborto no debate político pela ótica da religião.

Folha - Qual a sua avaliação sobre o debate eleitoral no primeiro turno?

Francisco de Oliveira - Fora o horror que os tucanos têm pelos pobres, Serra e Dilma não têm posições radicalmente distintas: ambos são desenvolvimentistas, querem a industrialização...

O campo de conflito entre eles é realmente pequeno. Mas, por outro lado, isso significa que há problemas cruciais que nenhum dos dois está querendo abordar.

Que tipo de problema?

Não se trata mais de provar que a economia brasileira é viável. Isso já foi superado. O problema principal é a distribuição de renda, para valer, não por meio de paliativos como o Bolsa Família. Isso não foi abordado por nenhum dos dois.

A política está no Brasil num lugar onde ela não comove ninguém. Há um consenso muito raso e aparentemente sem discordâncias.

Dá a impressão que tanto faz votar em uma ou no outro...

É verdade. É escolher entre o ruim e o pior. (nota minha: repare que aqui ele não diz que são a mesma coisa. Existe um ruim e o pior. E abaixo, pelo que ele diz dos tucanos, percebe-se quem é o pior a que ele se refere)


Qual a sua opinião sobre a movimentação de igrejas pregando um voto anti-Dilma por causa de suas posições sobre o aborto? (a Folha se esquece de cidtar que essa campanha religiosa é alimentada por José Serra, que inclui até 'Jesus é a verdade' em seus santinhos agora)


É um péssimo sinal, uma regressão. A sociedade brasileira necessita urgentemente de reformas, e a política está indo no sentido oposto, armando um falso consenso.

O aborto é uma questão séria de saúde pública. Não adianta recuar para atender evangélicos e setores da Igreja Católica. Isso não salva as mulheres das questões que o aborto coloca.

O que significa a entrada desse tema no debate?

Representa o consenso por baixo devido ao êxito econômico. Essas posições conservadoras ganham força. Há uma tendência a todo mundo ser bonzinho. Nesse contexto, ninguém quer tomar posições consideradas radicais.

Com o progresso econômico, há um sentimento de conformismo que se alastra e se sedimenta, as pessoas ficam medrosas, conservadoras. Isso está ocorrendo no Brasil.

Gente da classe C e D mostra-se a favor de uma marcha de progresso lenta e contínua. Eles não querem briga, não querem conflito. Por isso o Lula paz e amor deu certo.

Se as pessoas tornam-se conservadoras, o que explica a divisão do Brasil quando considerada a votação de Dilma e Serra nos Estados?

É um racha. Significa que a questão da desigualdade regional ainda é muito marcante. Aliás, essa é outra questão que está fora da discussão. Os dois não querem abordar o tema. O que eles têm a dizer sobre os problemas regionais? O que fazer com as regiões deprimidas?

Por baixo disso tudo está a velha história de que São Paulo é uma locomotiva que puxa 25 vagões vazios.

Essa tensão existe. Esse desequilíbrio vai criando a sensação de que há um lado pobre e um lado rico. Como se houvesse um voto comprado, de curral eleitoral, e outro consciente. Há de fato uma fratura, e isso ressurge em períodos eleitorais.

O sr. foi um dos primeiros a romper com o PT, em 2003, e saiu fazendo duras críticas ao presidente. Lula, porém, termina o mandato extremamente popular. Na sua opinião, que lugar o governo Lula vai ocupar na história?
A meu ver, no futuro, a gente lerá assim:

Getúlio Vargas é o criador do moderno Estado brasileiro, sob todos os aspectos. Ele arma o Estado de todas as instituições capazes de criar um sistema econômico. E começa um processo de industrialização vigoroso. Lula, é bom que se diga, não é comparável a Getúlio.

Juscelino Kubitschek é o que chuta a industrialização para a frente, mas ele não era um estadista no sentido de criar instituições.

A ditadura militar é fortemente industrialista, prossegue num caminho já aberto e usa o poder do Estado com uma desfaçatez que ninguém tinha usado.

Depois vem um período de forte indefinição e inflação fora de controle.

O ciclo neoliberal é Fernando Henrique Cardoso e Lula. Coloco ambos juntos. Só que Lula está levando o Brasil para um capitalismo que não tem volta. Todo mundo acha que ele é estatizante, mas é o contrário.

Como o sr. avalia as afirmações de que o comportamento de Lula ameaça a democracia?
Não vejo como uma ameaça. Mas o Lula tem um componente intrinsecamente autoritário.

Em que sentido?

Ele não ouve ninguém, salvo um círculo muito restrito, e ele tem pouco apreço por instituições.

Eu o conheço desde os anos de São Bernardo. Ele tem a tendência, que casa perfeitamente com o estilo de política brasileira, de combinar primeiro num grupo restrito e, depois, fazer a assembleia. Ele sempre agiu assim.

Não é pessoal, é da cultura brasileira, ele foi cevado nisso. Mas não que ele queira derrubar a democracia.

Isso é da cultura política em que ele foi criado: o sindicalismo, que é um mundo muito autoritário, muito parecido com a cultura política mais ampla. E ele se dá bem, sabe se mover nesse mundo.

As instituições de fato não são o barato dele. Mas ele não ameaça a democracia do ponto de vista mais direto nem tem disposição de ser ditador. Acho essas afirmações um exagero, uma maldade, até. Elas têm um conteúdo político muito evidente.

Agora, certa ala do PT, com José Dirceu... Esse tem projetos mais autoritários.

E essa ala ganharia mais força num governo Dilma?

Acho que não. Porque Lula vigia ele de muito perto. Lula não gosta dele [José Dirceu]. Tem medo, até, do ponto de vista político. Ele veio de outra extração, a qual Lula detesta. Uma extração propriamente política, de esquerda.

O sr. já disse que Lula havia matado a sociedade civil. O que pode acontecer num governo Dilma e Serra? Haveria diferença?

Os governos tucanos têm horror ao povo. Isso não é força de expressão. É uma questão de classe social.

Eles não têm contato com o real cotidiano popular. Eles não andam de ônibus, não têm experiência do cotidiano da cidade. Nem de metrô eles andam, o que é incrível.

A cidade é grande, tem violência, a gente sabe. Mas eles não sabem como é o transporte, como são os hospitais, as escolas públicas. Há uma fratura real, eles perderam a experiência do cotidiano real. E isso não entra pelas estatísticas, só pela experiência.

Por causa disso, o governo deles é sempre uma coisa muito por cima. Eles são pouco à vontade com o popular. Essa é a diferença marcante em relação a Lula.

Sobre Dilma eu não sei. Ela pode também sofrer desse mal.

Mas, do ponto de vista da evolução e da função dos movimentos sociais, qual dos dois é preferível?

Eis uma questão difícil. Os tucanos, com esse horror a pobre, tendem sempre a aumentar essa fratura, essa separação. Os tucanos não têm jeito...


Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui

7.10.10

Está em dúvida sobre em quem votar? Compare os governos FHC/Serra x Lula/Dilma

Estava fazendo falta um vídeo que comparasse, de maneira didática, a diferença estrondosa entre o desempenho dos governos Lula-Dilma-PT e FHC-Serra-PSDB. Obrigado ao @Mr_Machado por tê-lo enviado.

Contra números não há argumentos. Veja e escolha que caminho você quer para o Brasil: seguir mudando ou dar marcha-a-ré.

E indique aos amigos. É muito importante sobretudo para os jovens que não sabem o que foi o período FHC-Serra (1994-2002), com o Brasil quebrado, de joelhos diante do FMI, com 45% de juros ao ano, dívida externa explodindo, sem gerar emprego, sem crescimento, com racionamento de energia, sem criar uma única universidade e com uma população recorde de miseráveis.

6.10.10

Dois pesos: uma jornalista do Estadão denuncia o que a elite quer que os pobres pensem

Reproduzo abaixo excelente artigo de Maria Rita Kehl, do Estadão (aquele jornal que pelo menos teve a coragem - que Folha, Veja e Globo não tiveram - de assumir que está ao lado de Serra)

Maria Rita foi demitida mas, dada a repercussão na internet, foi readmitida minutos ou horas depois, mas com a condição de 'aprovação prévia' das próximas coisas que escrever.

Atualização de 07/10: Maria Rita foi de fato demitida, leia aqui o que ela tem a dizer sobre seu 'delito de opinião'

Vale a denúncia da censura (em SP, onde Serra manda, desmanda, demite jornalistas tanto em jornais 'amigos' quanto na TV Cultura).

Vale pelo conteúdo excelente, que expõe os verdadeiros interesses dessa elite que, definitivamente, jamais vai engolir que o povo, via PT, via Lula e agora seguindo com Dilma, tenha vontade própria e, mais que isso, comande o destino do Brasil.

Leia, divulgue, repasse, forme sua opinião, não se deixe manipular.


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Dois pesos...

Maria Rita Kehl

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente.

Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

Publicado em 2/10/2010 no Estadão e reproduzido em toda a web, como no Blog do Noblat e no Vi o Mundo. Não sei se nos jornalões vai continuar no ar, aproveitem e leiam rápido.

10.4.08

Por quê? A quem interessa?

Olhando as principais notícias das últimas semanas, sempre distorcidas, exageradas ou parciais, fico me perguntando a quem interessa mostrá-las dessa maneira... exemplos:

1 - Caso da menina jogada do prédio. Não se chegou a conclusão nenhuma ainda, a quem interessa ficar demonizando o pai e a madrasta, numa sórdida riqueza de detalhes que me lembra outros casos clássicos de linchamento por parte da imprensa, como o da Escola Base em SP? Aliás, a quem interessa, por mais emotivo que seja, alçar este caso à condição de notícia número 1 do país?

2 - Por que uma revista como a IstoÉ, que já teve seus tempos de glória, que se vangloria em ser independente, iria distorcer uma manifestação contra a privatização da CESP em SP, chegando a apagar digitalmente em uma foto, a expressão "Fora Serra" (do PSDB, governador de SP)? A quem interessa? Será que o fato de estar falida e precisando desesperadamente de anunciantes faz com que tenham que agradar ao governo estadual mais poderoso do país?

3 - Apesar da violência e do já conhecido hábito de desrespeito aos direitos humanos por parte da China, por que tomar partido do Tibet diariamente no noticiário, ameaçar boicote às Olimpíadas, etc, etc, etc?

Bom, a quem interessa todos sabemos: aos EUA, que querem diminuir o poder da China. Porque quando o mesmo assunto envolve as condições da prisão deles em Cuba, de invasão do Iraque, ou de outros povos que massacram seus vizinhos, mas que são alinhados/aliados dos EUA, não vira notícia mundial. A questão é: por a grande imprensa do Brasil tem que nos empurrar essa briga distorcida, e fazer coro com os norte-americanos nesta "luta pela liberdade?". No Blog do Alon tem um post muito interessante, que esclarece pontos não abordados pela grande imprensa, como o fato de o Dalai Lama receber mesada da CIA e já ter sido ditador do seu povo, colocando a população como 'servos'...

4 - Por que quando um partido descobre maracutaias do outro, investiga-se as maracutaias (mensalão, etc), e quando esse outro descobre as maracutaias do primeiro, investiga-se o ato de investigar? Ou seja, falando em bom português: se o dossiê é contra o PT, investigue-se os crimes praticados pelo PT. Ótimo.

Mas, se o dossiê é contra o PSDB, o crime é investigar, é produzir o dossiê (desde a época dos "aloprados" na campanha de 2006, e agora essa dos gastos de FHC). Então, investigue-se o PT. Por que dois pesos e duas medidas? Por que o crime em si perde a importância? Em 2006, só se falou dos aloprados, do dossiê, mas ninguém investigou o objeto do dossiê, que era a participação de políticos do PSDB na máfia das ambulâncias. Por quê? Investigue-se as duas coisas: quem obteve dados sigilosos, como obteve, mas também o crime a que eles se referem. Não é simples?

Por quê? A quem interessa?

(atualização de 15/04: a charge abaixo, do blog do Orlandeli, resume bem o que eu falei acima, achei fantástica):

15.10.07

Teste - Vestibular para Jornalismo

Olhem que interessante e escolham a melhor alternativa para o título de uma matéria, dado o texto abaixo, retirado do jornal (?) Estado de Minas de domingo, 14/10/2007, página 12:

"O prefeito de São João del-Rei (MG), Sidney Antônio de Souza (PSDB), conhecido como Sidinho do Ferrotaco, pode sofrer processo de impeachment por causa de licitações dirigidas. Sidinho responde na Justiça por duas ações de improbidade administrativa impetradas pelo Ministério Público". Dentre outras travessuras, a prefeitura compra material de construção sem licitação no depósito do pai do prefeito...

O título mais adequado para esta matéria é:

(1) Prefeito de São João del-Rei acusado de improbidade administrativa
(2) Prefeito de São João del-Rei pode perder o cargo
(3) Prefeito de São João del-Rei responde a ações na Justiça
(4) PT de olho na prefeitura

No Estado de Minas o publicado foi o último. Lamentável. Imagina se o prefeito fosse do PT? Como seria a manchete? Mas não, é do partido do Aécio, dos donos dos jornais, rádios e TVs no Brasil, e, como é da cidade do Aécio, deve ser alguém muito chegado, alguém que a Andréa Neves não pode deixar falar mal...

Bom, é exigir demais também, uma vez que o EM nem jornal é...