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6.10.10

Dois pesos: uma jornalista do Estadão denuncia o que a elite quer que os pobres pensem

Reproduzo abaixo excelente artigo de Maria Rita Kehl, do Estadão (aquele jornal que pelo menos teve a coragem - que Folha, Veja e Globo não tiveram - de assumir que está ao lado de Serra)

Maria Rita foi demitida mas, dada a repercussão na internet, foi readmitida minutos ou horas depois, mas com a condição de 'aprovação prévia' das próximas coisas que escrever.

Atualização de 07/10: Maria Rita foi de fato demitida, leia aqui o que ela tem a dizer sobre seu 'delito de opinião'

Vale a denúncia da censura (em SP, onde Serra manda, desmanda, demite jornalistas tanto em jornais 'amigos' quanto na TV Cultura).

Vale pelo conteúdo excelente, que expõe os verdadeiros interesses dessa elite que, definitivamente, jamais vai engolir que o povo, via PT, via Lula e agora seguindo com Dilma, tenha vontade própria e, mais que isso, comande o destino do Brasil.

Leia, divulgue, repasse, forme sua opinião, não se deixe manipular.


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Dois pesos...

Maria Rita Kehl

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente.

Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

Publicado em 2/10/2010 no Estadão e reproduzido em toda a web, como no Blog do Noblat e no Vi o Mundo. Não sei se nos jornalões vai continuar no ar, aproveitem e leiam rápido.

28.9.10

Cuidado - querem fazer você de bobo - um resumo final antes da eleição

Faltam poucos dias para as eleições mais intragáveis que já acompanhei, com o baixo nível disparado pelo ex-político José Serra desestimulando a participação até dos mais fanáticos.

Algumas coisas devo registrar, que vêm acontecendo de maneira planejada, para que todos nós fiquemos alertas:

Depois da avalanche de denúncias infundadas, sem provas, sem dar o direito à parte acusada de dar sua versão, a grande imprensa que patrocina José Serra desistiu e mudou de estratégia:

1 - Os 'militantes' do atraso espalham mensagens pela internet com mentiras escabrosas sobre Dilma, responsabilizando-a por assassinatos, dizendo que é lésbica, pró-aborto, etc. Há um post perfeito desmentindo uma a uma essas maldades, confira aqui, do blog 'Seja Dita Verdade'.

2 - Tendo percebido que José Serra, com seus estratosféricos 40% de rejeição, não se elege nem síndico de prédio, o PIG (Partido da Imprensa Golpista) resolveu - de maneira muito inteligente, devo reconhecer - vitaminar a candidatura de Marina Silva, visando levar a eleição para o segundo turno.

Até a frase 'Lúcia Hippolito declara voto em Marina' virou notícia para o G,obo ontem. Imagina se cada declaração de voto de pseudo-famosos virar matéria de jornal...

Marina não é boba, está usando isso para ganhar politicamente, mas é uma petista, sempre foi, e certamente estará com Dilma no segundo turno.

O clima de '1984' (o livro sobre o 'Grande Irmão' que manipula todas as informações, chegando a reescrever a história) chegou a mais um ápice ontem, com a Folha manipulando descaradamente uma afirmação onde Marina diz: "Serra intimida jornalistas". Em todos os veículos saiu essa frase, mas a Folha conseguiu colocar "Marina diz que Serra e Lula intimidam jornalistas". Leia aqui.

Não é segredo pra ninguém que Serra intimida jornalistas, liga para redações, manda demitir quem não lhe bajula (como fez recentemente na TV Cultura de Sâo Paulo). Destrata jornalistas, é grosso e ditador. Alguns exemplos de como ele é paciente com perguntas inconvenientes podem ser vistos aqui e até com Miriam Leitão, da amiga Globo, aqui. Chega a abandonar entrevista e, pasmem, confiscar a fita com a gravação, quando as perguntas fogem ao 'combinado'. Veja aqui.

E ainda vem essa mídia dizer que Lula e o PT querem calar a imprensa, justamente aquele que foi ridicularizado durante 8 anos com todo tipo de denúncia, chamado de cachaceiro, analfabeto, etc, e nunca censurou nada.

Nem vou dizer que é ruindade de um jornal tão ruim que chegou a matar o senador Romeu Tuma no fim de semana para depois ter que desmentir. Ou que errou no anúncio do Extra na época da Copa do Mundo, 'eliminando' o Brasil em um jogo que ele ganhou.

A Folha é ruim, mal-intencionada e covarde. Poderia ser como o Estadão, jornal conservador, representante dos ricos paulistas, que declarou apoio a José Serra. Menos mal, pelo menos vestiram a carapuça de maneira clara, pois fazem campanha para a elite desde a época da ditadura. Aliás, a Folha emprestava carros para os torturadores, sempre foi uma vassala da ditadura.

Já a Folha não, continua de maneira covarde distorcendo fatos, utilizando seu instituto de pesquisa para tentar criar uma situação (não é a primeira vez, e todos sabem que o DataFolha é o menos confiável), muda declarações de pessoas, cria escândalos com base em entrevistas de criminosos, e ainda tem a cara-de-pau de fazer um editorial se dizendo 'plural e apartidária'.

Para ter uma idéia sobre o que está em jogo para o PIG, só o governo de São Paulo (Serra/Alckmin) gasta R$ 34 milhões por ano(!!!) em assinaturas das revistas da Editora Abril que demonstra sua gratidão fazendo da Veja o instrumento de campanha impressa mais descarado que já existiu a favor de Serra (já o é desde Collor). Leia aqui.

E Serra? Serra é um despreparado, um autoritário, incompetente e que tem como principal tarefa na vida destruir seus inimigos. Não é à toa que foi abandonado por quem poderia ser seu principal cabo eleitoral, Aécio Neves. Serra tem biografia ridícula e é capaz de se prestar a vexames como esses:

- Diz que a gripe H1N1 (a 'gripe suína') só se espalha quando os 'porquinhos espirram' ou 'quando se chega perto do nariz do porco'. Isso porque ele foi Ministro da Saúde (péssimo), coloca isso como o que tem de melhor na biografia. Veja aqui.

- Não consegue fazer uma conta simples de porcentagem/divisão, dando vexame em aula para crianças. Veja aqui.

- A mais recente é fazer planejamento para quando 'acabar a energia solar e eólica'. Bom, só quando o mundo acabar, né? Veja aqui.

Lembremo-nos mais uma vez: Marina não tem nenhuma chance de ir ao segundo turno, o objetivo claro é usar Marina e os eleitores 'desiludidos com os escândalos' para levar Serra adiante, e igualar o jogo. No segundo turno, voltarão com o rolo compressor de denúncia, pois sabem que Marina estará ao lado de Dilma e ela também vai entrar na lista de pessoas a terem a biografia destruída por mentiras. Tudo com o propósito de eleger Serra e retomar os privilégios que perderam em 2002.

Não se deixe enganar. Vote em quem você achar melhor, mas não caia em joguinho de mídia. Faça sua própria análise, procure se informar e bom voto. Eu sou Lula e Dilma, não escondo, mas não me atrevo a pedir voto, gosto do debate e da informação.

Só peço que, inteligentes como são as poucas pessoas que leem este blog, reflitam sobre a situação e não aceitem ser massa de manobra. Não sejam responsáveis por dar a chance de um doente desses ser presidente.