20.7.07

Esse vai ser lembrado como bonzinho também?

"Coitado, Tales! Bem, ou mal, ele fez história". Foi o que eu ouvi quando comentei que o famigerado, agora falecido, Antônio Carlos Magalhães, o "Toninho Malvadeza" estava, segundo o Blog do Noblat, em estado gravíssimo e irreversível.

Pois é... a gente tem essa mania de torcer pro mais fraco, de colocar os nomes no diminutivo (Rubinho, Ronaldinho...), de achar que quando o sujeito morre, seus pecados desaparecem.

Comecei a me interessar por política em 1982, com 10 anos, lendo a Veja do meu pai e acompanhando as pesquisas para as eleições daquele ano. Me lembro da eleição do Brizola no Rio, apesar de uma campanha descarada contra ele da Rede Globo, que começou pela divulgação de noticiário amplamente desfavorável, passou pela manipulação de pesquisas e, se não denunciada a tempo, terminaria com a maior fraude eleitoral da história do Brasil. Mas Brizola ganhou. Neste ano, Lula também ganhou pra deputado em SP, acho.

Aqui em Minas, acho que era Tancredo contra Eliseu Resende, PDS (partido de ACM, Maluf e da ditadura, que antes se chamava Arena e depois se dividiu em PFL - hoje "Demo" (nome muito adequado) e PPB, depois PP e, depois do mensalão, PR, acho) contra PMDB, praticamente só havia esses dois partidos no Brasil. Na maioria das cidades do interior, incluindo a que eu morava, era PDS1 x PDS2, duas facções do partido da ditadura, sem oposição.

E eu já lia sobre os métodos nada convencionais de Antônio Carlos Magalhães, um homem que enriqueceu e se tornou "dono da Bahia" durante a ditadura militar. Idealista, eu o tinha como o símbolo de uma raça de políticos que tinha que desaparecer, e que, quando isso acontecesse, o Brasil ia melhorar. Tadinho.

Pois é. O cara foi embora. E vai melhorar alguma coisa?

No fim das contas, até comentei com meus pais hoje, ele já não era mais um político exceção, gente da laia dele é regra. Exceções agora são o Pedro Simon, o Jefferson Peres, o Eduardo Suplicy, o Cristovam Buarque. Aliás, o jeito dos atuais parlamentares de roubar é muito mais rasteiro, repugnante, com seus dólares na cueca, seus bois forjados, suas ambulâncias superfaturadas.

ACM só se envolvia com coisa grande, TV Globo, jornais, utilizava publicidade oficial pra privilegiar amigos, dava obra pra empreiteira da família (OAS). Coisa de ladrão chique, não de ladrão de galinhas. Um dos pioneiros em tratar o público como se fosse privado, colocando nomes de familiares e seu próprio em ruas, avenidas, viadutos, pontes, aeroportos. Uma lista das denúncias contra ele pode ser lida aqui.

Durante sua vida "política", criou a Rede Bahia, que engloba diversas empresas do estado, principalmente de comunicação (88.7 Bahia FM, 102,1 FM Sul (Rádio FM em Itabuna), Correio da Bahia (Jornal), Globo FM (Rádio FM em Salvador), Gráfica Santa Helena, iContent (Produtora), iBahia.com (Portal de Internet), Construtora Santa Helena, TV Bahia (afiliada da Rede Globo em Salvador e região), TV São Francisco (afiliada da Rede Globo em Juazeiro e região), TV Oeste (afiliada da Rede Globo em Barreiras e região), TV Santa Cruz (afiliada da Rede Globo em Itabuna e região), TV Subaé (afiliada da Rede Globo em Feira de Santana e região), TV Sudoeste (afiliada da Rede Globo em Vitória da Conquista e região), TV Salvador (canal fechado, transmitido em UHF ou por assinatura) (Fonte: Wikipédia).

Não é coincidência ele ser dono da Globo na Bahia. Nem o fato de ele e a Globo terem crescido durante a ditadura, culminando com a sua nomeação para o Ministério das Comunicações (que absurdo! é colocar a raposa pra tomar conta do galinheiro) durante o governo pós-mesma-coisa-ditadura de José Sarney.

Aliás, eu sempre achei que o negócio dele não era dinheiro, era poder. Ele não roubava, deixava os amigos roubarem desde que o bajulassem e o chamassem de painho, e o fizessem sempre governador, senador, o que ele quisesse. Aécio está aprendendo direitinho.

Enfim, sua saída não vai melhorar nem piorar o congresso. Não tem mais como melhorar nem piorar esse lamaçal. Estou escrevendo este post antes da confirmação de seu falecimento, e com muita curiosidade sobre como a Globo vai tratar o assunto

Fica, como provocação, uma pergunta pros religiosos: o cara roubou, fraudou, desviou, mentiu, mandou matar. Mas ia toda semana à Igreja rezar. Ele vai pro céu?

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Frases de e sobre ACM (a Globo gosta de outras frases, as boas, proferidas por ele mesmo, que podem ser lidas aqui):
"Aos amigos, tudo. Aos inimigos, o Fisco." (ACM)

"Prefiro ser temido a ser respeitado." (ACM)

"Vou ganhar esta eleição com o dinheiro numa mão e o chicote na outra." (ACM)

"Nunca confiei em bajuladores como Antonio Carlos Magalhães, um dos mais vitoriosos carreiristas deste país" (João Baptista Figueiredo, ex-presidente da República, entrevista publicada após sua morte, em 1999).

"O Antonio Carlos é tão truculento, mas tão truculento, que foi capaz até de dar um tapa na cara do próprio filho quando Luiz Eduardo já era deputado estadual"." (Fernando Henrique Cardoso, Presidente da República, 1997). Detalhe: mesmo com esse currículo, ACM foi presidente do Senado durante parte do governo FHC, assim como Renan Calheiros foi seu ministro da Justiça, obtendo lá grande parte das informações contra os demais colegas que usa hoje pra tentar se salvar. E vem o PSDB posar de moralista...

"O AI-5 (...) é instrumento imprescindível para romper o cerco da agrssão subversiva e assegurar a ordem pública" (ACM, 1972)

"Se eu quisesse, faria você governador da Bahia." (ACM, ao repórter Armando Rollemberg, da IstoÉ, 1982).

(nota atualizada): agora, todos os políticos estão exaltando, corretamente, as características de ACM: "forte", "destemido", "corajoso". Honesto ninguém falou. Mas o recorde foi de FHC que, após chamá-lo de truculento (frase cima), hoje veio com esta:

"Acabo de sair do Instituto do Coração, onde fui levar um abraço de sentimento e solidariedade aos familiares de Antônio Carlos Magalhães. Ele marcou a história da Bahia e do Brasil. Ele era importante, forte, rápido, respeitoso, polêmico e encantador quando queria. Um inimigo temível para quem estivesse no campo oposto. Diferentemente dos políticos tradicionais, Antônio Carlos Magalhães tinha preocupação com a eficiência e a competência.

Modernizou a Bahia. Embora tivéssemos tido momentos de dificuldade em nosso relacionamento político, ele ajudou decisivamente o meu governo e o Brasil, especialmente, quando na Presidência do Senado e do Congresso, viabilizou reformas importantes. Seja qual for a perspectiva política a partir da qual Antônio Carlos Magalhães seja avaliado, é indiscutível que foi um homem de coragem e talento, que guardou até o fim o ânimo para combater pelo que acreditava"

Triste de quem precisa de ACM pra "ajudar o Brasil nas reformas importantes" e que o achava "preocupado com eficiência e competência". Vindo de quem pediu pra esquecerem o que tinha escrito, não surpreende.

2 comentários:

diovvani mendonça disse...

Nem sei como vim parar aqui, mas seguinte... Do meu lado, torço para que exista mesmo o inferno (não é vingança, é justiça) para que ACM e todos de sua laia, queimem e ardam além dos quintos, ainda acho pouco. Além do mais, agora estou com preguiça de pensar algo mais potente, para equilibrar todas as mazelas dessa criatura. Se puder depois acesse o link http://diovmendonca.blogspot.com/2007/06/postagem-ao-som-das-msicas-no-com.html

MontanhosoAbraço.

Anônimo disse...

Com a saída de cena do ACM, encerra-se mais um capítulo da história do coronelismo.

Ainda bem que ele não conseguiu deixar semente.

Marquinho Avellar